terça-feira, 29 de junho de 2010

EGRESSO DA UNIPAC É ENTREVISTADO SOBRE CRÉDITO EDUCATIVO

OPÇÕES DE FINANCIAMENTO PRIVADO ATRAEM UNIVERSITÁRIOS
Economistas defendem a alternativa para quem não pode pagar mensalidade, mas sugerem cuidados com juros e pagamentos em dia

Um diploma de ensino superior é passaporte para melhores postos no mercado de trabalho e salários. Porém, conquistar esse título não é tarefa simples para todo mundo. As vagas nas universidades públicas são escassas perto do contingente de candidatos que poderia chegar ao ensino superior. Nas instituições privadas, as mensalidades são impeditivas para tantos outros.

De acordo com o Censo da Educação Superior 2008, último divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), as instituições privadas possuíam 3,8 milhões de alunos. E apenas metade deles se forma. Na opinião dos especialistas, o Brasil precisa dar condições para que esses estudantes consigam concluir os cursos.

O programa de financiamento estudantil do governo federal, o Fies, foi, durante muitos anos, a opção mais procurada pelos alunos que não possuíam renda suficiente para pagar as mensalidades. No entanto, as poucas vagas oferecidas – hoje, cerca de 400 mil estudantes são beneficiados – e os critérios de concessão do crédito eliminavam grande parte dos candidatos.

Com a chegada do Programa Universidade para Todos (ProUni), que dá bolsas aos alunos de baixa renda em instituições privadas, o perfil do Fies mudou. Estudantes em uma faixa diferente de renda passaram a ser contemplados, o que pode elevar a demanda por vagas no programa. Mas, ao longo dos anos, as faculdades buscaram alternativas próprias para manter os universitários.

Os programas de financiamento privado estão cada vez mais numerosos. Além das próprias instituições, bancos e empresas de crédito passaram a atuar nesse mercado. As condições oferecidas nesses casos não são as mesmas condições do Fies – os juros atuais do programa são 3,4% ao ano, os mais baratos do mercado – mas têm atraído clientes.

A maioria dos programas consultados pelo iG tem juros que variam entre 6% e 7% ao ano. Há programas, no entanto, que cobram percentuais mais altos, de 1,5% ao mês. De resto, os critérios são semelhantes aos do Fies: financiam metade do valor da mensalidade, exigem fiador e os estudantes têm o dobro da duração do curso para quitar a dívida.

Para os economistas, a perspectiva de melhoria salarial e empregatícia para quem possui diploma de ensino superior compensa o investimento. Ressaltam, no entanto, que o estudante deve procurar os programas que oferecem os menores juros e pagar as prestações sempre em dia. “Se a pessoa confia que se tornará um profissional capaz, o investimento vale a pena”, afirma o professor de economia da Universidade Católica de Brasília Rogério Miranda.

Rogério dá dicas para os estudantes que pensam em solicitar um financiamento. “A primeira coisa que eles têm de fazer é olhar o custo do financiamento e comparar a taxa de juros com o rendimento da poupança. Se eles forem mais altos, começam a ficar perigosos”, diz.

Nilton Marques, professor e conselheiro do Conselho Federal de Economia, acredita que mesmo os financiamentos que cobram cerca de 1% ao mês são vantajosos. “O dinheiro mais barato disponível para uma pessoa tomar emprestado em um banco não terá juros menores. O mais importante é pagar em dia, para que não haja multas e cobranças de juros sobre juros”, opina.

“As pessoas se esquecem do tamanho do financiamento que estão fazendo. Se um curso custa R$ 500 ao mês, dá R$ 6 mil ao ano. Em quatro anos, são R$ 24 mil. É uma soma alta, então, no fim a dívida é mesmo grande”, completa Rogério.

Soluções variadas
A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) mantém um programa de financiamento estudantil em parceria com a Fundação Aplub de Crédito Educativo desde 1974. Segundo Adroaldo Piccinini, da coordenadoria de Relacionamento Discente da instituição, cerca de 2,5 mil estudantes são beneficiados.

Lá, os universitários podem financiar 50% da mensalidade. A apresentação de fiador é indispensável e essa figura não pode ser pai, mãe ou cônjuge. A pessoa que garantirá o pagamento do valor financiado, caso o estudante não pague a dívida, deve ter renda três vezes maior que a mensalidade paga pelo aluno. A matrícula não entra no financiamento.

“Para a instituição, o programa foi muito importante porque é uma solução para que o estudante se mantenha no curso e consiga administrar seus compromissos com a universidade”, afirma Adroaldo.

Carlos Furlan, diretor executivo da Ideal Invest, responsável pelo crédito universitário Pravaler, acredita que esse é um mercado em expansão no País. “Depois de o volume de oferta de vagas ter crescido, o próximo passo será um impulso para viabilizar acesso financeiro aos estudantes”, analisa.

O Pravaler oferece crédito a qualquer estudante, independentemente da renda. Disponível em 170 instituições de ensino em diferentes estados. Até hoje, 430 mil alunos já procuraram o financiamento. Há pouco mais de 35 mil matriculados nas faculdades parceiras do grupo com crédito aprovado. Na média, os alunos têm juros médios de 1,5% ao mês.

Os bancos também decidiram investir no financiamento estudantil. Mônica Bari, superintendente de Produtos do Santander, diz que a primeira preocupação é praticar juros bem baixos. A experiência ainda piloto do banco – que deve ser ampliada no ano que vem – foi feita com 10 universidades. Segundo ela, os contratos do programa serão feitos a cada semestre e nenhum aluno precisará financiar o curso tudo.

“Ele vai pagar metade da mensalidade, terá o dobro do tempo que financiar para pagar e pode escolher o período que quer financiar. Vamos trabalhar com um programa forte de educação financeira”, conta. “Um percentual muito baixo da população está na universidade. Há muitas pessoas, inclusive, que fazem um curso porque não puderam pagar outro. Existem oportunidades em todos esses nichos”, enfatiza.

No produto do Itaú/Unibanco, as parcelas pagas pelos estudantes são fixas e os juros não ultrapassam 7% ao ano. “Trabalhamos com 45 escolas no País, ainda estamos em fase de aprendizado, mas a experiência tem sido positiva e o retorno dos alunos, também”, garante Marcos Magalhães, diretor do banco.

Dicas de quem fez financiamento
Marconny Souza Gomide, 29 anos, estudou engenharia por dois anos. As mensalidades de R$ 600 pesaram no orçamento familiar e ele precisou desistir do curso. “Eu havia tentando, mas não consegui o Fies. Fiquei sem estudar um tempo, mas era um sonho cursar o ensino superior. Além da empregabilidade, o conhecimento faz diferença”, pondera.

Quando criaram o curso de sistemas de informação em uma instituição privada de Ipatinga (MG), ele decidiu recomeçar. Logo perdeu o emprego e a esposa engravidou. Para não parar, apostou no financiamento. A faculdade possui parceria com o Pravaler. Pegou o financiamento integral das mensalidades. “Passei a pagar R$ 260 por mês. Ficou bem mais fácil”, diz.

Segundo Marconny, sem o financiamento, ele teria de interromper o curso. Formado desde julho do ano passado, ele está pagando com “tranqüilidade” o restante da dívida. “Consegui emprego antes de terminar a faculdade e agora falta pouco mais de seis meses para quitar o resto do financiamento”, conta.
Andrews Minuzzi, 29 anos, ainda está longe de quitar sua dívida com a Fundação Aplub, responsável pelo financiamento do curso de direito que fez na PUCRS. Os pagamentos vão até 2013. Mas, de acordo com o jovem, isso não o incomoda. Pagando sempre em dia as prestações, Andrews viu no financiamento a única possibilidade de obter um diploma.

“Quando comecei o curso, meu pai pagava as prestações. Mas ele aposentou e a renda familiar caiu. Eu estava no terceiro semestre. O crédito foi a realização dos meus sonhos. Acho que o estudante que decide pegar um financiamento tem de pensar bem para não ter problemas e calcular os gastos mesmo”, aconselha.

Fonte: Priscilla Borges, iG Brasília - 27/06/2010